É com interesse que tenho reflectido sobre os «posts» de FBastos designados «Vamos Fazer a Revolução em Alcochete» , nos quais lança a proposta de adesão dos municipes a um modelo de gestão do município e das freguesias com um Orçamento Participativo amplamente preparado, discutido e decidido pelos próprios, baseado nos Princípios de Porto Alegre (Estado do Rio Grande do Sul no Brasil).
Sem querer parecer do contra , e repito , depois de aturada reflexão , constato que a ideia se reveste de um idealismo à primeira vista atraente , mas que não só não contribui para a descoberta, aumento e dinamização da massa critica de que este concelho tanto carece , como involuntariamente , poderá servir os interesses políticos do Partido Comunista em Alcochete.
A justificativa comumente apresentada para a suposta inovação contida na experiência do Orçamento Participativo de Porto Alegre idealizada e promovida pelo Partido dos Trabalhadores (PT) do presidente brasileiro Lula da Silva , de que fala FBastos , é , transposto para a realidade da autarquia local em Portugal , a de que os munícipes poderão fazer valer a sua voz numa espécie de nova organização construída por fora dos órgãos tradicionais do poder local (Câmaras Municipais e Juntas de Freguesia) , num processo em que aqueles são motivados a reunir-se para decidir coisas que a Câmara Municipal deverá fazer.
No actual contexto local e nacional, marcado pelo profundo desinteresse e alheamento em relação à intervenção política e pela gritante falta de massa critica e de pessoas minimamente preparadas para participar de forma habilitada neste tipo de iniciativas , é fácil antever que as Assembleias em que se concretizará o Orçamento Participativo tal como é proposto por FBastos serão facilmente manipuladas pela estrutura partidária local mais organizada ( leia-se o Partido Comunista) , cuja capacidade indiscutível de mobilizar os seus militantes e simpatizantes os levará a lotar e controlar essas assembleias, transformando-as numa espécie de «sovietes» locais de munícipes.
Se este cenário é bastante provável num contexto em que o PC controla a Câmara Municipal, não hesito em afirmar que seria uma certeza se aquele partido fosse oposição , situação em que o Orçamento Participativo não seria mais do que uma mera caixa de ressonância de uma dinâmica reactiva e de oposição contra o poder local vigente em Alcochete , e que o transformaria inevitavelmente numa espécie de agência de cobrança de tudo e mais alguma coisa à autarquia.
Num caso ou noutro, o Orçamento Participativo acabará sempre por ser uma iniciativa em que as decisões são tomadas em Assembleias em que apenas uma percentagem diminuta dos participantes tomam a palavra, na maior parte das vezes compostas por delegados arrebanhados para votar em chapas e propostas.
Outra ordem de razões me leva a levantar sérias reservas à iniciativa proposta por FBastos.
Mesmo que houvesse vontade politica da Câmara Municipal de Alcochete e das Juntas de Freguesias do Concelho em realizar aquilo que é proposto no âmbito do Orçamento Participado, o que será certamente duvidoso sobretudo se se tratarem de propostas apresentadas por munícipes fora da órbitra de influência do partido que estiver no poder, a falta de condições financeiras e a eventual incapacidade de gestão para as executar (evidente no que respeita ao actual executivo), tornaria numa absoluta perda de tempo este tipo de iniciativa.
Por outro lado, afigura-se-me que esta proposta de Orçamento Participado corre o risco de ser fragmentadora, pois poderá prevalecer a tentação de atender a necessidades específicas sentidas (e até certo ponto induzidas pelos munícipes que de uma forma ou de outra controlam a iniciativa) de ruas ou espaços concretos da vila ou do concelho demarcadas arbitrariamente em função desses interesses mais ou menos pessoais ou bairristas , o que certamente contrariaria um ideal de desenvolvimento integrado e sustentado devidamente planificados e desenvolvidos com um mínimo de racionalidade , reduzindo o Orçamento Participado a uma espécie de bolsa de reivindicações em que logrará obter mais respostas da Câmara Municipal ou da Junta de Freguesia quem conseguir levar mais gente para as Assembleias, mantendo as populações presas ao passado, com os olhos voltados apenas para as suas necessidades particulares.
Por fim não hesito em concluir que esta iniciativa do Orçamento Participado não resolve minimamente o problema último que se propõe combater.
A falta de participação cívica e politica dos munícipes na resolução dos problemas do Concelho , pois continua a entregar a solução última de todos os problemas à Câmara Municipal ou à Junta de Freguesia , ou seja , por um lado desresponsabiliza e descompromete os seus actores com a tarefa de encontrar e implementar as suas próprias soluções, enfraquecendo, ao invés de fortalecer, o seu empreendedorismo, a sua criatividade, o seu protagonismo e, enfim, a sua participação propriamente dita , e por outro permite sempre à Câmara Municipal optar por se desresponsabilizar ou assumir os «louros» sempre que uma iniciativa se revelar negativa ou positiva para o Concelho.
Face a esta conclusão, não me admira portanto, que o Orçamento Participativo tenha sido idealizado por um partido de perfil comunista como é o Partido dos Trabalhadores de Lula da Silva , e que seja tão acarinhado e incentivado em Portugal pelo Partido Comunista Português.
Pelo contrário, ao invés de apostar numa iniciativa castradora do empreendedorismo e do protagonismo dos munícipes como o é no limite o Orçamento Participativo , sugiro que se promovam acções de interesse público, em prol do desenvolvimento de Alcochete baseadas na parceria entre múltiplos actores (Câmara Municipal, Juntas de Freguesia , empresas e sociedade civil), que contem com a participação voluntária de cidadãos conectados em redes organizadas e articuladas em equipes capazes de animar uma rede de voluntários que contribuam para a elaboração de um diagnóstico dos activos e das necessidades locais, para a elaboração de um plano de desenvolvimento, para a formulação de uma agenda de prioridades e para a celebração de um pacto municipal em torno das prioridades identificadas.
A partir daí as acções seriam realizadas em parceria , envolvendo Câmara Municipal, iniciativa privada e organizações da sociedade civil mas, sobretudo, mobilizando a mencionada rede de cidadãos voluntários.
Ao contrário do que sucede numa proposta como a do Orçamento Participado em que a solução dos problemas continua dependente da vontade politica e da capacidade financeira e de gestão da Câmara Municipal ou da Junta de Freguesia , esta tipo de abordagem permitirá ao Concelho de Alcochete descobrir e valorizar os seus activos humanos , empresariais e associativos , aumentado e melhorando a massa critica local disponível , dinamizar as suas potencialidades e assumir responsabilidades, aprendendo a identificar e aproveitar oportunidades , levando os munícipes a assumir verdadeiramente o papel de artífices do seu futuro.