01 fevereiro 2006

As dívidas e a sustentabilidade

Enquanto neste quintal se perde tempo enganando tolos com futilidades e se limita à comunicação porta-a-porta algo que ninguém deseja explicar – tanto mais que, fatalmente, as dívidas serão liquidadas plantando a esmo mais e mais caixotes de betão – descubro que, desde meados de 1994, existe uma "Carta das Cidades Europeias para a Sustentabilidade", que pode ser lida aqui.
Que bom seria podermos discutir coisas úteis para o futuro, juntando no palco do fórum cultural os principais protagonistas do "estado a que isto chegou" e pô-los perante uma audiência de 400 pessoas, escolhidas a dedo porque eu sei como se enchem salas de comícios. Boa oportunidade, também, para um brilharete da rádio local.
Duvido que haja coragem para tal e por isso curvo-me perante a memória do malogrado rei D. Carlos, que terá dito, há cerca de um século, viver em "um país de bananas governado por sacanas".

31 janeiro 2006

Um passo adiante mas...


Julgo que os leitores locais deste "blog" também receberam na caixa do correio o papel cujo cabeçalho reproduzo ao lado.
Ele representa um significativo avanço na política de comunicação do executivo municipal de Alcochete porque, tal como escrevi em artigos precedentes – nomeadamente neste – o apoio popular alicerça o poder do governante mas só se conquista e se se mantém contacto permanente com os cidadãos.
Os números mencionados no papel são elucidativos mas não me surpreendem. Além disso, nem tudo o que por aí circula consta dele. Talvez a anunciada auditoria venha a cavar mais fundo.
Por agora relevo quatro questões de ética política:

1. O absurdo de um autarca se ter arvorado em Pai Natal, quando parte da obra foi financiada por empresas privadas e podem não ter sido honrados alguns compromissos contratuais. Tem o dever de se explicar e direito legal a fazê-lo através dos meios do município. A câmara está a preparar uma edição do Boletim Municipal. É boa oportunidade para fornecer os devidos esclarecimentos.

2. Uma espécie de pacto de silêncio dos eleitos no mandato anterior. Na câmara havia 3 vereadores da oposição e na assembleia municipal 11 deputados da oposição. Ao longo de 4 anos, a assembleia municipal – que tem, entre outras, a missão estatutária de acompanhar e fiscalizar a actividade do município – reuniu-se umas 20 vezes. Em todas as sessões é imperativa a apresentação de um relatório do presidente da câmara sobre a actividade do município e a sua situação financeira. Uma vez por ano é submetido, discutido e aprovado o relatório e contas do exercício anterior. Conheciam ou não os factos constantes do papel?

3. Os membros do actual executivo autárquico submeteram ao sufrágio dos eleitores um ambicioso programa eleitoral. Com ele ganharam as eleições, estão no poder e detêm a maioria. Mas há óbvias divergências entre o conteúdo do programa e o teor deste papel. Não têm mais nada a esclarecer?

4. Os eleitos são os representantes do povo nas instituições democráticas. O povo detém o poder surpremo e o direito de exigir aos eleitos a assumpção da responsabilidade neles delegada.

30 janeiro 2006

Corrida de Toiros e Ordem

Salvaguardados os planos distintos, tal como a celebração da missa, a corrida de toiros é a representação de uma ordem.
Ninguém vai a uma corrida de toiros esperando uma mudança da estrutura do espectáculo, mas já espera a máxima criatividade dentro das regras recebidas desde a bruma dos tempos.
Se personificássemos a corrida de toiros, ela talvez nos advertisse de que quanto mais regra, mais liberdade.
De facto não há liberdade que se espraie fora dos parâmetros da ordem.
A corrida de toiros é ordem do quê? De valores imemoriais como a coragem, a superação do medo, a arte (técnica), a acção da inteligência humana sobre as forças da natureza, o progresso com dignidade, etc. Estes valores estão fortemente ligados à afirmação do indivíduo. Nos direitos inalienáveis deste se estende o veio da civilização ocidental e cristã desde há dois mil anos.
Ora é esta civilização, considerada a velha ordem, que todas as esquerdas no mundo querem eliminar, substituindo-a por uma nova ordem que apagará o indivíduo a favor do colectivo à escala planetária. Aqui não há lugar para a Ideia de Deus nem para qualquer manifestação da cultura cujas raízes antropológicas ascendam àquele Princípio de Ordem Superior.
As esquerdas apenas contemporizam com as heranças culturais dos povos, o que se insere numa estratégia política mais vasta para a tomada do poder em toda a parte. Eis por que eu digo: amar a Festa Brava e apoiar partidos políticos de esquerda é uma contradição.

29 janeiro 2006

Neve em Alcochete!





Na sequência de uma descida brusca de temperatura (que, em cerca de uma hora, passou de 6 para 2 graus Celsius positivos), às 15h10 começou a nevar em Alcochete!
O fenómeno durou cerca de 30 minutos.

Inédito?

27 janeiro 2006

Festa de Toiros e Liberdade

Se eu perguntasse a um comunista de cultura média o que, no fundo, representa a Festa de Toiros, ele responder-me-ia que a capacidade do homem para interferir com sucesso sobre as forças da Natureza.
O que o meu virtual interlocutor não descortinaria é que a resposta dada entra em manifesta contradição com a ideologia marxista, base filosófica do comunismo.
Se a Festa de Toiros representa a interferência bem sucedida do homem sobre a Natureza, então esta não é um destino fatal ao qual nos tenhamos que submeter inexoravelmente. Mas, como tenho defendido em vários textos neste Blog, o comunismo é um fatalismo porque «...tende na direcção de um Estado à escala mundial, [...] a forma mais completa e acabada do totalitarismo integral» (Charles Lagrave, Lectures Françaises, mars, 1999).
Em termos intelectuais, não se pode pensar que se o peso das esquerdas sobre a nossa Sociedade progredisse e alcançasse o poder, coabitaria com a Festa de Toiros cuja mensagem mais intrínseca é a da liberdade.
Eis por que motivo agora se percebe que todo o ataque cerrado à Festa Brava nunca venha da direita política, mas de amplos sectores controlados de perto ou à distância pelas esquerdas, embora a maioria esmagadora dos detractores não tenha consciência do que diz e faz. Isto mesmo é condição sine qua non para a boa consecução da tenebrosa estratégia.

26 janeiro 2006

Novas freguesias arquivadas

A ideia peregrina de criar novas freguesias morreu, diz o presidente da junta de Alcochete a um jornal regional.
A ideia vinha de trás, como devem saber. E não nascera naquela junta – que fez ouvidos de mercador – mas na câmara.
Só me admira a persistência de uma política coxa, que em nada difere da anterior, celebrizada como sendo de cuco.
Jamais haverá democracia participativa se quem governa continuar a enviar recados por interpostos meios.

O esgoto

Quando, por incúria do homem, um rio é mero cano de esgoto, o resultado é este: o estuário do Tejo continua entre os mais poluídos da Europa.
A fonte de poluição por mercúrio está agora mais perto de Alcochete.
Convém ler também esta informação esclarecedora. E ainda esta do Parlamento Europeu.
Continuem a banhar-se e a pescar nestas águas...

Recomendação de leitura (6)

Que se saiba, até ao momento a situação financeira da câmara de Ourique é o caso mais grave do mandato autárquico terminado em Outubro. Os dados revelados nesta notícia são esclarecedores.
Confesso a minha surpresa, não pela notícia – que nem sequer é inédita, pois em 2002 a câmara de Setúbal estava também insolvente – mas pelo contributo de órgãos do Estado para este estado de coisas.
Por onde andaram, até Outubro, a Inspecção-Geral de Finanças (IGF), a Inspecção-Geral da Administração do Território (IGAT), o Tribunal de Contas (TC), a oposição autárquica e os cidadãos de Ourique? Que poder local é este?
Importa recordar que o líder do anterior executivo ouriquense era social-democrata e o novo é socialista.
Admito que a celeridade da investigação derive da gravidade do caso, mas não posso deixar de estranhar que, perante denúncias públicas de gestão duvidosa noutras autarquias, IGF, IGAT e TC não actuem imediatamente.
Qualquer que seja a militância partidária dos intervenientes, cabe a esses organismos, em primeira instância, apurar se alguém põe precipitadamente em causa a honra de eleitos locais ou se nas denúncias há algo mais que fumo.

25 janeiro 2006

Recomendação de leitura (5)

É importante ler esta notícia na íntegra, relacionada com a revisão da lei das finanças locais.
Parecem-me boas perpectivas para o município de Alcochete, excepto se, uma vez mais, houver aumento de encargos para os contribuintes.
Preocupa-me a omissão de qualquer referência a regras mais severas de aprovação de investimentos e de gestão das finanças. É que os encargos com juros e amortizações estão controlados, mas o endividamento corrente não.
Achei particularmente divertido que, na entrevista, sejam focados aspectos (como a criação de novas freguesias) que, há meses, eram argumento eleitoralista no largo de São João. Quem o inventou teve a resposta na altura certa e eu mantenho a convicção de que, em política, pior cego é quem não quer ver.

Outro assunto abordado na edição de hoje do DN – protecção de crianças e jovens em risco – corrobora o que escrevi no passado dia 19. O erro é mesmo do sistema, porque sem ovos os técnicos não podem fazer a omeleta.

Para finalizar, leiam esta notícia, cujo tema é totalmente distinto.
E nós, que temos a sede da Reserva Natural do Estuário do Tejo e, sem bairrismo, maior variedade de aves para observar, estamos à espera de quê?
Não é preciso inventar nada. Há exemplos de sobra por essa Europa fora. E fundos comunitários sempre houve e continuará a haver.
Deitem mãos à obra, caramba!

24 janeiro 2006

Boas ideias

A ideia expressa nesta notícia parece-me positiva, embora, conhecendo algumas das pessoas citadas, duvide que das discussões saia mais luz que faíscas. Mas, por vezes, também estas são úteis para abanar o sistema.
Um pouco por todo o país têm surgido ideias semelhantes. Prevalecem duas tendências: designar um provedor do munícipe ou um conselho de "senadores".
As funções não são exactamente as mesmas, mas qualquer das hipóteses me parece positiva.
Em Alcochete, via debate electrónico, alguém sugeriu, em tempos, um conselho municipal. Pelo menos as candidaturas do CDS e da CDU repescaram a sugestão, em Outubro, para os respectivos programas eleitorais.
O CDS ficou fora dos órgãos municipais mas a CDU detém a maioria.
Depreendo do programa desta coligação estar fixado como limite o final de 2006 para a criação de um "Conselho Municipal, como o órgão máximo de promoção e da participação dos cidadãos, na lógica de uma democracia participada".
Por definição, democracia participada é a que envolve o poder e os cidadãos na tomada de decisões, embora o actual executivo, até ao momento, tenha preferido algo muito diferente.
Em face da burocracia e da lentidão da administração autárquica, talvez um ano seja prazo demasiado longo para criar o tal Conselho Municipal.
A experiência pode ser positiva e, quem sabe, passível de inclusão na legislação autárquica, cuja revisão está prevista para o ano corrente.
Por todas as razões recomendaria alguma antecipação, porque quanto mais tempo houver melhor se avaliarão benefícios e inconvenientes desse órgão de consulta e aconselhamento dos executivos da câmara e da assembleia municipal.

23 janeiro 2006

Ou fado ou comunismo

O fado não é um destino fatal, mas alívio à dor.
Alívio à dor do fado que pesa sobre os portugueses, sem que, ainda, se vislumbre um fim para o longo pesadelo.
Que pesadelo?
Há muito tempo, séculos talvez, que o povo português é impedido de expandir todas as suas potencialidades humanas por meia dúzia de tubarões que aproveitam o próprio Estado para a perpetuação deste cárcere infernal.
O fado é fado porque denuncia este triste fatum que é ausência de liberdade. Eis a razão por que ninguém se deve surpreender que as raízes do fado sejam eminentemente religiosas e cristãs.
A liberdade é o principal sustentáculo do Cristianismo porque neste o homem faz o seu próprio destino. Disse Jesus Cristo ao paralítico: «levanta-te e anda» (João, 5, 8). Paralíticos somos todos nós quando ficamos parados à espera de uma saída providencial para as aflições da vida.
Essa saída providencial é encarnada no Estado pelas esquerdas, unidas pelo marxismo, filosofia do comunismo.
Assim, eu pergunto: o que é que liga o fado ao comunismo? Nada! Então voltemos ao título desta nótula e concluamos: ou fado ou comunismo.

Os autocarros

Se e quando esta notícia se confirmar, concretiza-se uma das bandeiras eleitorais da CDU em Samouco.
A principal bandeira era a solução do caso da extensão do centro de saúde, acerca do qual o candidato hoje em maioria na junta de freguesia recorda, no vídeo da campanha, nunca antes a coligação ter prometido a construção de um centro de saúde. Mas acrescenta o seguinte: "temos soluções intermédias para resolver este caso". Deriva daí o que escrevi noutro texto precedente.
A alteração da circulação de autocarros – que o anterior executivo municipal decidira de modo pouco pacífico e, creio, nunca totalmente concretizado – era outra bandeira. Note-se que a solução agora prevista chegou a ser equacionada, embora considerada inviável devido à indisciplina no estacionamento.
Oxalá câmara e junta tenham conseguido o que antes parecia impossível.

A propósito de autocarros, pergunto: quando as obras da 2.ª fase da variante estiverem concluídas continuarão a circular pelo interior da Urbanização dos Barris, em Alcochete, situada nas imediações da Escola EB El-Rei D. Manuel I?
Se a resposta for afirmativa, contem com a firme oposição dos residentes por causa do desassossego.
O ruído e a poluição das 06h00 às 02h00 da madrugada de todos os dias, a algazarra e a depredação causadas pela miudagem nas paredes e grelhas de protecção dos sistemas de ventilação situados das imediações de uma das paragens implantadas na Rua da Escola Secundária, já levaram algumas pessoas a pôr a casa à venda. Outras, não menos saturadas, adiaram a decisão apenas porque as primeiras continuam sem comprador.
Seja a resposta positiva ou negativa, no mínimo o município deve reparar os estragos visíveis em propriedade privada.

Arruma? Desarruma?

De três, duas: ou Luís Franco presume que basta algum ruído para mostrar que governa a câmara; ou está a tentar reescrever os manuais de marketing político; ou ao autor desta notícia nunca explicaram a fórmula mágica da comunicação jornalística: "qqocq".
Trocada em miúdos a fórmula traduz-se da seguinte forma: que, quem, onde, como e quando.

Franco "arruma" Alcochete?
Discute-se o quê em matéria de planeamento e ordenamento do território?
Uma boa oportunidade de "colocar um conjunto de questões sobre o ordenamento territorial"? Quais?

Não, não creio que este seja o rumo político correcto. Por este andar é "vira o disco e toca o mesmo"! Cuidado: não passaram sequer 100 dias!

Transcrevo, enfim, a segunda de inúmeras citações constantes do programa eleitoral da CDU à Câmara Municipal, atribuída a Hannah Arendt:
"Nada no nosso tempo é mais duvidoso, penso eu, do que a nossa atitude perante o mundo. (…) Pois o mundo não é humano só por ser feito de seres humanos, e não se torna humano só por nele se fazer ouvir a voz humana, mas sim, e só, quando se torna objecto de diálogo. Por muito que as coisas do mundo nos afectem, por muito profundamente que nos abalem e nos estimulem, só se tornam humanas para nós quando podemos discuti-las com o nosso semelhante."

Alcochete e as presidenciais

Números globais do concelho nas presidenciais de 2006:
Inscritos ..................................11.162 eleitores

Votantes ................................. 6.996
Abstiveram-se ........................ 4.166 (37,32%)
Votos brancos ........................ 78
Votos nulos ............................. 57

Votos expressos:
Cavaco Silva ................ 2.245
Manuel Alegre .............. 1.959
Jerónimo de Sousa ...... 1.520
Mário Soares ................. 758
Francisco Louçã ........... 343
Garcia Pereira ............... 36

A ordem dos candidatos é idêntica nas três freguesias.

Apenas dois comentários acerca dos resultados locais:
- Manuel Alegre é exemplo de que os alcochetanos (e os portugueses em geral) estão-se nas tintas para as estratégias partidárias;
- Alcochete não é feudo da esquerda.

22 janeiro 2006

Não é a saúde que falha, são as pessoas

Não dispondo o Estado de receitas suficientes para subsidiar todos os projectos que os 308 municípios lhe apresentam anualmente, os autarcas têm de ser sensatos na definição de prioridades.
A experiência mostra, há vários anos, ser prudente que o poder local se abstraia de ambições eleitoralistas e seleccione os projectos a financiar pela administração central em função da satisfação de necessidades básicas ou da utilidade dos empreendimentos para o maior número de cidadãos.
Para reavivar a memória, eis alguns dados factuais.
O Programa de Investimentos e Despesas de Desenvolvimento da Administração Central (PIDDAC) em 2006 prevê para investimentos em Alcochete as seguintes verbas: 52.865 euros para a construção da nova biblioteca pública; 35.000 euros para o reapetrechamento da Escola EB El-Rei D. Manuel I e mais 174.340 euros para construção do respectivo pavilhão desportivo; 109.829 euros para a alteração do entroncamento da EN4 com a via de acesso ao centro de estágio do Sporting; 100.000 euros para apetrechamento da Escola Secundária de Alcochete e 51.656 euros para a remodelação do parque escolar.
Em 2005, o mesmo PIDDAC reservava ao concelho de Alcochete 94.500 euros para a nova biblioteca pública; 247.479 euros para o pavilhão gimnodesportivo da Escola EB El-Rei D. Manuel I; 34.860 euros para a alteração do entroncamento da EN4 com a via de acesso ao centro de estágio do Sporting e 154.500 euros para o apetrechamento da Escola Secundária de Alcochete.
E em 2004 foram reservados 33.750 euros para a biblioteca pública; 25.000 euros para o entroncamento da EN4; 470.000 euros para a construção da Escola Secundária; 17.273 euros para a remodelação e conservação do parque escolar e 149.640 euros para a construção da sede da Sociedade Filarmónica Progresso e Labor Samouquense.
Somem-se a isto 650.000 euros aplicados pelo Estado na construção do fórum cultural – cuja obra financiou em 32,5% do valor inicialmente orçamentado – mais o que será investido na construção de uma avenida a que, pomposamente, chamaram Variante Urbana.
Nestes três anos o Estado cativou para Alcochete verbas destinadas a obras não imprescindíveis e mal planeadas que ultrapassam 1.100.000 euros, enquanto continuam sem solução problemas antigos e prementes, tais como os das extensões de saúde de Samouco e São Francisco (que, em conjunto, servem quase 4.000 pessoas), assunto focado nesta notícia do jornal «Sem Mais».
Suponho que a quarta parte da verba cativada para obras dispensáveis em face das limitações orçamentais do Estado seria suficiente para dotar ambas as freguesias de instalações de saúde com um mínimo de condições funcionais.
O populismo para consumo local parece-me inútil – até porque, a médio prazo, tem efeitos contraproducentes – e os recados ao poder só têm algum efeito se transmitidos nos meios de comunicação de expansão nacional.
Há que combater o isolamento de quem se situa a 30kms do Terreiro do Paço, refinar os métodos de contacto e de comunicação e agir mais ao nível institucional (membros do Governo, deputados da oposição, etc.) ou, como passado, influenciar as pessoas certas na hora exacta.
Pelo menos desde os anos 60 que, salvo raras excepções, as principais obras que o Estado financiou em Alcochete resultaram da intervenção directa de dois tipos de pessoas: das que tinham raízes locais e ascenderam a órgãos de decisão do poder central ou das que, desconhecendo o concelho, foram convidadas a observar a realidade, compreenderam os argumentos dos autarcas e ficaram sensibilizadas.
Daí que me pareça estéril e condenada ao insucesso a via reivindicativa e populista detectada na notícia cuja hiperligação forneço acima. Suponho que a solução depende, sobretudo, da capacidade de persuasão, de persistência e da racionalidade de argumentos.
Vale a pena recordar uma história curiosa, passada há menos de quatro anos, relacionada com o posto de combustíveis construído a poucas dezenas de metros de edifícios de habitação e de uma escola, na Urbanização dos Barris, em Alcochete.
Após ter prometido, em campanha eleitoral, recusar o licenciamento da obra, poucos meses depois o presidente da câmara então recém-eleito declarava-se impossibilitado de o fazer, devido a compromissos legais assumidos pelo antecessor. Provavelmente, teria sido possível dar a volta ao problema por outra via: o presidente da empresa petrolífera proprietária do posto era pessoa que conhece muitíssimo bem o concelho. É filho de uma alcochetana e de um homem a quem Alcochete ficou a dever alguma coisa nas décadas de 50 e 60, tendo na juventude passado férias numa propriedade então situada a poucas centenas metros do local onde hoje está o posto de combustíveis que, com toda a probabilidade, terá sido uma das dezenas de justificações para a derrota eleitoral do presidente da câmara eleito em finais de 2001.
Que tem isso a ver com as extensões de saúde de Samouco e São Francisco?
Se houvesse algum relacionamento regular entre eleitos e eleitores; se a recepção aos novos moradores fosse mais que propaganda e autopromoção; se houvesse a preocupação de conhecer o perfil profissional dos novos residentes e de os sensibilizar para problemas locais pendentes, descobrir-se-ia existir uma reserva estratégica eventualmente útil mas inaproveitada: habitam em Alcochete inúmeras pessoas importantes em múltiplas ocasiões. Algumas têm intervenção directa e indirecta em centros de decisão do Estado.
Lá diz o ditado: "quem não tem cão, caça com gato".

20 janeiro 2006

Para memória futura (2)

Vale a pena registar, para memória futura, um excerto do discurso do presidente da Câmara Municipal de Alcochete, proferido na cerimónia de atribuição de galardões de mérito do município, no passado dia 15:
“Este Executivo, de que muito me orgulho de presidir, irá esforçar-se, que ninguém duvide, por deixar uma indelével marca na prossecução do desenvolvimento harmonioso e sustentado (…) em todas as áreas indispensáveis para a satisfação das necessidades dos naturais e residentes neste Concelho”.
Prometo não me esquecer da promessa e espero que nos possamos congratular por isso no final do mandato. A esperança é a última a morrer. Costumo acreditar nas pessoas, até prova em contrário.
Já agora, uma saudação especial aos funcionários autárquicos agraciados com a Medalha de Bons Serviços, por terem 30 ou mais anos de dedicação e serviço: Maria Luísa Pinto Canastreiro Chagas, Margarida Júlia Belo Quaresma Trindade, Maria Fernanda Simões Oliveira Bastos, José Francisco Frade Texugo, José Mata do Vale, Diamantino da Cruz, Ludovico António Tirolete Brissos.
Quão interessantes deverão ser as suas memórias! Camaradas jornalistas com órgão de comunicação social: toca a desvendá-las antes que se reformem!

19 janeiro 2006

Reflexão para um Projecto Educativo de Escola

Segundo tenho conhecimento, muitos trabalhos para a elaboração de Projectos Educativos de Escola privilegiam um instrumento frequentemente utilizado em Sociologia, vale dizer, o inquérito.
O inquérito não deve ser uma prioridade de trabalho para Projectos Educativos, mas apenas um recurso ancilar.
O que pergunto é o seguinte: há uma ideia de Projecto Educativo para as comunidades escolares? Eis uma questão que considero vertical e prioritária à via horizontalista do inquérito.
A espinha dorsal de um Projecto Educativo deve ser a atenção dada à componente lectiva que por sua vez estará ao serviço do modelo ocidental de democracia cuja charneira é a liberdade.
Um Projecto Educativo não deve circunscrever-se apenas à melhoria de aspectos exteriores (higiene, instalações, equipamentos, etc.) de um estabelecimento de ensino, mas sobretudo apresentar estratégias sérias para a consciencialização da disciplina como um bem, superando fobias, aparentemente inexplicáveis, que impedem a responsabilização dos jovens pelas consequências dos próprios actos. Mas por que razão isto acontece?
Eu defendo que uma Sociedade, sob o peso das esquerdas, vê ameaçado o sentido da responsabilidade.
As esquerdas estão vocacionadas para o fortalecimento da vontade geral cujo termo fatal e necessário é a supremacia do Estado sobre as mais ínfimas movimentações do indivíduo.
Nesta conformidade, ninguém pode escapar aos desígnios do Estado como se este fosse um destino implacável.
Assim sendo, amortece o sentido de responsabilidade no indivíduo que é levado, consciente ou inconscientemente, a pensar que o Estado, qual bom pai, tudo resolve. Eis o móbil básico da desresponsabilização geral.
Incapazes de coragem para descer às causas mais profundas das coisas, psicólogos e sociólogos, à boa maneira romântica de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), operam intelectualmente e em campo no sentido de que o indivíduo nasce bom, mas que a Sociedade o degrada. Este é o tópico bem disseminado em milhentos textos escolhidos para os vários manuais dos alunos por pseudo-intelectuais. Ora não é possível exigir aos jovens responsabilidade e submetê-los à ideia de que a Sociedade é origem fatídica de degradação generalizada.
Urge que um Projecto Educativo contribua para a convicção a interiorizar pelos jovens de que a Sociedade não traça o destino, mas que este é construção de cada um. Só assim é possível a responsabilidade em vez da demissão.
Finalmente, nenhum Projecto Educativo poderá fugir à reivindicação da autoridade e dignidade do professor em função de um serviço à comunidade a fim de que não assistamos ao colapso desta com o da própria escola no sentido de instituição.

Sociedade à beira do precipício

Como qualquer cidadão não indiferente aos problemas da sociedade, acompanho com atenção o noticiário acerca de crianças e jovens em risco.
Desde o caso extremo da aldeia de Figueira (Portimão), aos mais recentes de Porto, Gaia e Viseu, creio ter lido quase tudo o que a Imprensa publicou.
Sobre o caso de Viseu existe já um relatório preliminar oficial, no qual instituições do Estado lavam daí as mãos e apontam o dedo à respectiva Comissão de Protecção de Crianças e Jovens em Risco.
Achei a atitude estranha e precipitada mas não me surpreendo porque, dia sim, dia não, os representantes do Estado fazem de conta caber às estruturas por eles criadas a responsabilidade exclusiva da execução das suas directrizes. Ninguém cuida de avaliar, rigorosamente, se o erro está na lei ou nos executores. E é sempre mais fácil fazer como Pilatos: atribuir as culpas aos elos fracos da cadeia.
Acabei de ler, no «Jornal de Notícias», a confirmação das minhas suspeitas de que o cerne do problema reside na metodologia de constituição e funcionamento das comissões de protecção de crianças e jovens em risco.
Que tem isto a ver com Alcochete? Mais do que a maioria possa supor, por haver inúmeros motivos de preocupação. Acerca da constituição e do funcionamento da comissão municipal, cujos serviços de atendimento estão instalados no edifício da Casa do Povo de Alcochete, ouvi há meses o suficiente a alguém que dela fazia parte.
Fiquei surpreendido e, perante o que acabo de ler no «Jornal de Notícias», pergunto se será necessário acontecer alguma desgraça para que os alcochetanos passem da indiferença à acção.
Suponho que este "blog" é lido por quem mo relatou e convido-o a dar público testemunho do que sabe.
Não, caro leitor, não deite o problema para trás das costas. Ele não é da responsabilidade da entidade administrativa Município de Alcochete, nem dos seus eleitos. A sociedade compõe-se de avós, pais e filhos e todos têm alguma coisa a ver com problemas que fingem ignorar.

17 janeiro 2006

Do comunismo ao abismo

Em termos ideológicos, a expiação é uma categoria fulcral do Cristianismo alheia ao comunismo.
Para expiar um crime, urge a confissão (declaração) seguida de contrição (arrependimento). Ora esta conversão interior (mudança) é visceralmente estranha ao marxismo, matriz de todas as esquerdas.
Posso garantir aos leitores dos meus textos que, na generalidade, os intelectuais comunistas detestam o tema intrínseco a Crime e Castigo do escritor russo Fiodor Dostoievsky (1821-1881). Esse tema é a expiação.
A obra de Dostoievsky, entranhadamente religiosa, faz-nos ver as profundezas insuspeitadas da alma do povo russo, afigurando-se-me, aparentemente, inexplicável que, poucos anos depois da morte do grande romancista, a Rússia entrasse numa revolução para mudar o sentido do Universo.
Essa mutação radical dos mais altos valores humanos à escala planetária que, contra a ingenuidade de alguns, continua a perdurar, não olha a meios para atingir os fins, socorrendo-se por toda a parte do próprio crime. Muitas pessoas vêem nisto a aplicação mais maquiavélica do maquiavelismo, o que é tanto mais verdade quanto menos explica as coisas.
Nicolau Maquiavel (1469-1527), nefasto fundador da prática política como hoje a conhecemos, inspirou-se na lição gnóstica, sempre combatida pela Igreja, mas nunca extirpada definitivamente do subsolo cultural da nossa civilização.
O gnóstico achava que não havia barreira moral ao cometimento de quaisquer crimes desde que ele e Deus fossem um.
Ora nos tempos modernos Deus é substituído pelo Partido. Em nome deste tudo se faz, inclusive os maiores crimes, porque ideologia e consciência são uma e a mesma coisa. Aqui não pode haver arrependimento. Sem este não há expiação. Só o abismo.

E nós com o rio tão perto...


Leiam esta notícia e digam lá se seria necessário virem indicações e fundos de Bruxelas relacionados com a navegação fluvial. Qualquer ser inteligente que contempla o rio pensou nisto inúmeras vezes, sem nunca compreender porque nos limitámos, há décadas, a fazer dele um imenso esgoto.
Atenção ao teor da notícia original (em inglês e francês), que pode ser lida aqui.